Cheirando Café


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Vôo Lunar

Companhia da noite
inspiração pra tantas canções.
Delírio meu.

Esqueço de tudo enquanto a brisa me abraça
Olho pro céu e espelhos de luz e devaneios voejam sem pressa,
tenho pra mim que essa pedra de luz é um portal pra fantasia.

- lagrima sólida ... tu é mesmo misteriosa? Quem disse? O que me diz?

- te debruças em meu colo e bebes um pouco de luz, criatura.

Sexo e fogo, viciante,
tempestade viva na janela
Cinza, clara, infinda, talvez amarela.

- Calma ... ali via ai, espero ou des espero, está ai?

...branquinha, em - outros, noutros, sem, contra - tempos
tu arde no intenso por causa do sol e enquanto dorme sente calor
tu arde do raso ao infinito escuro à penumbra da dor.

Tu é luz ... eterno desejo
Mergulha no mais profundo abismo do amor
e lá de cima, com a ponta dos dedos
segura cuidadosamente o medo de se jogar
de ir embora
num doce
                                                          voar.

- o que sobra, embora não veja, são sombras de silêncio.

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domingo, 14 de novembro de 2010

Insones



- Na contraluz ... esquece.
- Não perai, a sombra tá querendo vestir a luz? É isso? O que você está vendo?
- Não vejo quase nada, nada além de sombra e luz.  Acho que é essa brisa que deixa as chamas inquietas ... vem e vai, vem e vai, bem suave, e quase apaga. Pelo menos aqui tá fresco.

E eu ponderando ...  enquanto isso, é teu olhar de mistério e tua mente complicada que me lê em silêncio. Mas não me incomoda não. O que me incomoda é que subo as escadas das minhas vontades e tenho medo de tropeçar, tenho medo. Se eu tropeçar finja que não viu nada, tá?!

Ontem sonhei que Calíope voltava. Eu não a maltratava mais. Alias, da última vez, a deixei ir embora. Disse pra voltar quando quisesse. E ela tem voltado mesmo, e de vez em quando. Conversamos, e foi-se até que de novo.

Eu confesso, já a deslembrei por um tempo. Ela naturalmente se arredou. Não posso tratá-la mal. Como vou escrever assim? Não quero ficar sozinho de madrugada.  É uma companhia imperiosa; às vezes agradável, às vezes não. Depende também da relação que temos. Negociamos na hora.

Calíope é minha inspiração, é minha quimera, está no meu devaneio noturno, até na fumaça dos meus cigarros, ela é minha miragem, minha fantasia, minha utopia. Não posso nunca perdê-la de vista. Afinal, quando tudo está mal no mundo real, olho fixamente para algum lugar e lá vem ela. Quando nos encontramos na beira do mar, então. Ah, estes são os melhores encontros.

Tá, não posso ser ingrato, não é só quando tudo está mal que nos encontramos. É porque percebo sua presença mais quando as coisas não estão muito boas mesmo. Calíope não tem corpo, não tem forma, não tem cheiro, não tem cor, ela simplesmente é. Assim sendo, é, sabe. Ela é ou não é. Ela ser. Ela existe ou não existe. Ter corpo, forma, cheiro e cor é muito trivial pra ela.

Assim me relaciono também com a solidão. E ela tá sempre por perto. Quando chego cansado e deito no sofá , quando olho para a luz amarela do lado da janela, quando deito na rede nas madrugadas insones, lá está ela.

E quando volto de uma saída com a felicidade?  Porque quando me encontro com a felicidade, eu a abraço com tamanha força que chego a sufocá-la. É saudade da felicidade mesmo, é falta de costume sabe, falta de convivência talvez. Ás vezes, a felicidade acaba ficando constrangida, mas eu não, eu nem ligo.

- Melhor com as janelas fechadas? E escuro?
- Deixe abertas mesmo. Quanto à escuridão, não me pergunte mais.

Foi quando escrevi o último verso:

- Bendito e amargo mel do desejo, que escorre macio e suave nos corpos vermelhos. 

Amanheceu, aniquilei a última ponta de cigarro no cinzeiro, apaguei as velas e “cobri meu rosto com teu lenço de seda escura.[1]


[1]Esta última frase é do poema “Canção do Desencontro no Terraço” de Mário Quintana

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sarau Flamenco

Nesta Terça, 26/10, a Toca do Plácido recebe sarau com música flamenca, literatura de língua hispânica e teatro. Com espaço aberto à participação de qualquer cliente do bar, o sarau conta com a participação especial de Renan Távora - violonista de música flamenca, de membros do coletivo de artistas cearenses Comparsas da Vivenda, e da Cia. Artória de Teatro.

A Toca do Plácido é um bar localizado na R. Castro Alves, S/N, no bairro Joaquim Távora - próximo ao Marcão das Ostras -, a 3 quarteirões da Av. Pontes Vieira.

O bar é conhecido por seu ambiente rústico e intimista, sua trilha toda embalada por discos de vinil e sua programação semanal que inclui o SARAU, às terças-feiras. Fazendo parte do roteiro da Toca, o sarau acontece desde o início deste ano, reunindo músicos, atores, poetas e interventores espontâneos em torno da arte, da boemia e das amizades.

Traga sua palavra, suas castanholas, sua alma.


 texto de Richel Martins - jornalista e ilustrador

sábado, 16 de outubro de 2010

Show dos Comparsas

Música, arte, discussões e homenagens à África marcarão o festival  / Foto: site oficial do evento

Os Comparsas da Vivenda irão tocar nessa terça-feira, 19 de outubro, durante o III Festival UFC de Cultura. O show acontece no Bosque Moreira Campos (Área 1 do Centro de Humanidades – Benfica), ao meio-dia. A banda Meu Amigo Imaginarium tocará logo depois, às 13h.

Subirão ao palco neste show os comparsas Ló Nunes, Richell Martins, Caio Castelo, Jairo Ponte, Amanda Nogueira e eu, Allan Diniz. No repertório, músicas e textos do próprio coletivo, além de uma versão de “Quando você me pergunta”, do cantor e compositor Rodger de Rogério.

O III Festival UFC de Cultura é uma realização da Coordenadoria de Comunicação Social e Marketing Institucional da Universidade Federal do Ceará. Veja a programação completa da Mostra.

Espero vocês!

Informações do III Festival UFC de Cultura

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Qual voto vale mais ?


Tem gente que prefere lutar pela paz no oriente médio e na hora de demitir sua empregada, não quer pagar-lhe seus direitos, e reclama ainda que a moça é mal agradecida. TEm gente que quer o mundo melhor e não ajuda à mãe lavar os pratos.Coisas simples, não participam da associação dos moradores do bairro por que só dá 'desqualificado'. É melhor se filiar a algum partido politco, tem mais gente pensante. Os que estão lutando por melhorias em seu bairro não são ativistas ?! Temos a desculpa de dizer que a democracia brasileira ainda é nova. Que aprendamos logo então, antes que envelheçamos enrrugados, democráticos e ainda ignorantes.

Estou sem tempo para escrever. Mas deixo algo que encontrei na semana, que vale a pena apreciar, certamente. Primeiro é um e-mail que andou passando sobre um zelador. E depois um texto de Maria Rita Kehl.


Maria Rita Kehl: A desqualificação do voto do pobre

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos.

por Maria Rita Kehl no O Estado de S.Paulo

Dois Pesos 

Este jornal (Estadão) teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Partituras de Saudade

Hoje recebemos um recado e elogios, via orkut, de uma fã perdida e anônima da Véu de Maya (banda que jaz há mais de 2 anos em nossos corações). Este contato me fez lembrar de muitos momentos e histórias que vivi por causa da arte, da paixão pela música. Um deles foi um dos Festivais de Música de Ibiapaba - Viçosa-CE -, em 2007. Revirando arquivos, um deles o antigo blog da "Véu", lembrei também de um texto que meu amigo e colega de banda escreveu sobre essa experiência, essa viagem - que foi muito linda, diga-se de passagem. Sem mais arrodeios ...

Rafael Ferreira, Saulo Duarte, Lise Lopes, Allan Diniz e Robert Veras(jul 2007)
Escrito em julho de 2007

Ano passado, o amigo e querido "Mestre" (violoncelo) da Dilei havia comentado o quanto o Festival de Ibiapaba havia mudado a sua vida. Viajar em si tem algo de transformador - algo arquetípico, ouso dizer. É como se a mudança concreta da paisagem provocasse você a explorar novos arranjamentos internos - como numa música que você experimenta um novo ritmo, um outro acorde, um inusitado instrumento. Às vésperas do dia de estrada, lembrei sua fala com gosto de boa expectativa. Viajamos a Véu de Maya em peso: Saulo, Lise, Allan e eu, mais o agregado Rafael, nosso anjo da guarda.

Viçosa do Ceará, cidade que acolhe o festival, parece convidar silenciosa a cada esquina o visitante a se mudar pra lá: as casas antigas, as praças bonitas, os pedestres transitando nas ruas vazias, além do cobertor verde e azul do alto da serra. À noite, como se não bastasse, a magia da serração, evocando as belas e as feras dos contos encantados.

Dividimos quinze músicos uma casa, às portas da descida pra trilha da Pedra do Machado. A oportunidade da convivência foi única. Apertar laços, atar novos e, por que não, desatar outros. Particularmente, pude conhecer de perto o grupo Murmurando e suas figuras cheias de alegria e musicalidade; ser apresentado à presença suave e intensa da Carlinha; ser estimulado a estudar mais pelo exemplo do Tadeu; reencontrar a Raquel; vivenciar o próximo mais próximo, como a Iago e a própria Véu de Maya. Para além da casa, os amigos da Falsa Boemia e o Sidarta, entre outros.

A programação do festival consistia de oficinas de música durante o dia e apresentações musicais à noite. No tocante às oficinas, uma chance de ser orientado por mestres no estudo do seu instrumento ou teoria e percepção em geral, além da oportunidade de travar contato e experiência com os outros educandos. Quanto às apresentações, aulas shows dos professores e shows propriamente ditos de beleza e qualidade, tais como o "Gonzagas" do Coral da UFC e o "Bossa-Trônica" da Paula Morelenbaum. Afora as "Rodas de Som", que fechavam as noites e aqueciam os ânimos com as nossas apresentações, não raro você ou eu articulando para subir ao palco com alguém que conheceu há um ou dois dias!

A Véu de Maya volta para casa com poeira dourada nas mãos e sementes de amizade e música...
texto de Robert Veras

sábado, 11 de setembro de 2010

Sou animal Arisco

...

Sentia-me calmo, protegido, assustei-me...
Perdi, viciadamente, a confiança
olho para uma espécie de espelho?

Fugi ....
... num desejo, ... vendado, voei
em melodias de piano que tocavam espectros de luz a milhares de distancias e possibilidades...

e que me tocavam também, bem fundo, quase que abissalmente
é como se deitasse a mão por dentro,
só lançava, não conseguia mirar – ali, estava - num desmedido intenso,
sentia, sentia, sentia ...

de repente,ouvia-se em todo mim, bem grande,
um grito, urro, rugido, berro, de fúria, aborrecimento, desencontro!

...cedros-brancos, azáleas, hortênsias, gardênias, camélias, prímulas, e umidade se misturavam às minhas lágrimas, que ao invés de cair, voavam, coloridas, gota a gota, e se perdiam ...

Eu caminhava no bosque da minha alma.

...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Hello World


Este blog não tem fins certos. E está aberto a olhares. Acredito que esta seja mais uma forma de me socializar com o mundo. Espero que gostem. Para começar, e fazer jus ao título ou endereço do blog, deixo aqui um conto que escrevi quando bebia um café num fim de tarde desses ...

Sejam bem vindos, meu amigos !



Cheirando café

- O que tanto vê nessa xícara de café, menino?

- Peraí, peraí.

... a lua se vestia da nuvem que bem entendia, o horizonte era bem ali, pertinho dos olhos. Com alguns passos se podia cruzar um universo e adentrar outro. Os rios da fábrica de café estavam na temperatura ideal. Nessa estação, tudo girava em torno do cafeeiro. Jovens criaturas brincavam em escorregadores gigantes e caiam em bolinhas coloridas. Torneiras enormes alimentavam os rios que serviam também para o transporte. O trem passava e passava com os “olhos voltados pro mar”.

Tinha sorvete, bolo, doce, algodão, bombom, chiclete, até as nuvens eram de café. As novidades voavam e voavam no sopro de cata-ventos trazendo também histórias de ser e existir. O vazio ficava no “acolá”, para quem ansiasse derramar lágrimas. A tarde, bela, se agasalhava com a sombra clara e confortável da noite. Os pássaros grandes e coloridos enchiam o céu, cantavam e voavam alto e tratavam de apagar as luzes antes de voejar para suas casas. O começo não tinha fim e o fim não tinha começo. Além, ouvia-se uma melodia de chuva, que caia como canções ...

- Ô menino, seu café esfriou.

O café esfriara e a fumaça não cobrira mais seu rosto. Como num susto e num despertar, a viagem fora interrompida. E ele falou nos olhos do velho que o acompanhava:

- Tudo pode acontecer. “Doce, doce, doce, a vida é um doce”, como dizia algum personagem por aí.

Sem tomar o café, levantou e saiu cantando.