Cheirando Café


domingo, 14 de novembro de 2010

Insones



- Na contraluz ... esquece.
- Não perai, a sombra tá querendo vestir a luz? É isso? O que você está vendo?
- Não vejo quase nada, nada além de sombra e luz.  Acho que é essa brisa que deixa as chamas inquietas ... vem e vai, vem e vai, bem suave, e quase apaga. Pelo menos aqui tá fresco.

E eu ponderando ...  enquanto isso, é teu olhar de mistério e tua mente complicada que me lê em silêncio. Mas não me incomoda não. O que me incomoda é que subo as escadas das minhas vontades e tenho medo de tropeçar, tenho medo. Se eu tropeçar finja que não viu nada, tá?!

Ontem sonhei que Calíope voltava. Eu não a maltratava mais. Alias, da última vez, a deixei ir embora. Disse pra voltar quando quisesse. E ela tem voltado mesmo, e de vez em quando. Conversamos, e foi-se até que de novo.

Eu confesso, já a deslembrei por um tempo. Ela naturalmente se arredou. Não posso tratá-la mal. Como vou escrever assim? Não quero ficar sozinho de madrugada.  É uma companhia imperiosa; às vezes agradável, às vezes não. Depende também da relação que temos. Negociamos na hora.

Calíope é minha inspiração, é minha quimera, está no meu devaneio noturno, até na fumaça dos meus cigarros, ela é minha miragem, minha fantasia, minha utopia. Não posso nunca perdê-la de vista. Afinal, quando tudo está mal no mundo real, olho fixamente para algum lugar e lá vem ela. Quando nos encontramos na beira do mar, então. Ah, estes são os melhores encontros.

Tá, não posso ser ingrato, não é só quando tudo está mal que nos encontramos. É porque percebo sua presença mais quando as coisas não estão muito boas mesmo. Calíope não tem corpo, não tem forma, não tem cheiro, não tem cor, ela simplesmente é. Assim sendo, é, sabe. Ela é ou não é. Ela ser. Ela existe ou não existe. Ter corpo, forma, cheiro e cor é muito trivial pra ela.

Assim me relaciono também com a solidão. E ela tá sempre por perto. Quando chego cansado e deito no sofá , quando olho para a luz amarela do lado da janela, quando deito na rede nas madrugadas insones, lá está ela.

E quando volto de uma saída com a felicidade?  Porque quando me encontro com a felicidade, eu a abraço com tamanha força que chego a sufocá-la. É saudade da felicidade mesmo, é falta de costume sabe, falta de convivência talvez. Ás vezes, a felicidade acaba ficando constrangida, mas eu não, eu nem ligo.

- Melhor com as janelas fechadas? E escuro?
- Deixe abertas mesmo. Quanto à escuridão, não me pergunte mais.

Foi quando escrevi o último verso:

- Bendito e amargo mel do desejo, que escorre macio e suave nos corpos vermelhos. 

Amanheceu, aniquilei a última ponta de cigarro no cinzeiro, apaguei as velas e “cobri meu rosto com teu lenço de seda escura.[1]


[1]Esta última frase é do poema “Canção do Desencontro no Terraço” de Mário Quintana