Cheirando Café


sábado, 25 de junho de 2011

Bom Dia e um Recado, meu bem.

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Na cozinha, em cima da mesa, um beijo suave e um pacote de pão.

Num abrigo,  moramos e desmoronamo-nos juntos, juntos assim, dentro de nós, e dentro, entre a calçada e o muro, entre a casa e o jardim, entre o sonho e a janela, sentado no chão, comendo geléia e vendo novela. e no mesmo teto, um mergulho na sala, no quarto, um pulo na cama... Diz que me ama, ou melhor, diz que não ...

Abre-se a porta, vive-se o lado de agora e num instante, indeciso, no próximo verso,
o abrigo não é aqui, é outrora.

Vejo de mim e de lá,
passos largos na rua,
dias curtos,
noites longas,
mortos vivos,
corpos firmes,
almas frágeis,
sambas tristes,
uma história,
cem finais,
chuvas breves,
e um só sertão.

É mesmo uma história, falei aqui e no outro verso.
São pontos iniciais que não são finais, não são vírgulas nem reticências,
já disse e não vou mais dizer, são pontos iniciais, o telhado do abrigo, talvez.

Sem entender mesmo o que são pontos iniciais, escrevo assim nesta carta...

Não quero abrigo, não quero casa. Teu amor é meu quintal.

... pro bem ou pro mal, quero ficar no bloco de fora do carnaval, e o carnaval já vem.


Meu amor, é melhor dizer que não, o perigo é mais um abrigo. Já fui, o trem partiu amanhã. 

Não te preocupas, a partir de agora tens um poema na mão e um verso de mim.


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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Conte Antes que Amanheça


O quadro colorido respira cinza na parede. Arte morta no escuro. Quem tem vida aqui? Não se engane. Aquela alma se arrebata dali, vai vadiar. Afinal, tem muita sombra interessante pela casa. E a luz pede pra dormir. É uma verdadeira zona.

- Alguém se importa? Quanto devaneio.

O vento de dia calado agora passeia morando, num diálogo confabulo redundante, propalando desocupado pela sala, levando também, num expresso amargo, os segredos e as angustias das casas para o mar.

O envelhecido silêncio canta no mar doce da ilusão doce. O mar tão doce que doce habita sob a minha cama, barco branco que navega além-mundo; outra vida, outro solo, outro tudo... 

- E o silêncio  do silêncio do silêncio do silêncio do silêncio ...

- ah, o silêncio.... é tão suave e tão barulhento, é imenso, quantas fermatas, quantos compassos, quantas notas abaixo de oitavas dos quintos de infernos pessoais. Só quem ouve bem são poetas, insones, os desamados, os perdidos, os acabrunhados, os tolos, os agoniados e os que teoricamente não pertencem a este mundo: os mentirosos, talvez os duendes e as fadas.

- Confesso que não sei dizer quem não pertence a este mundo. Já experimentou imergir?  

O tempo e o silêncio vivem sedento e sexualmente no escuro. O movimento noturno é muito maior, é desordem subjetiva, é provocação na entrelinha.

- Meu deus, já pensou quanto se sufoca com a luz? Eu soube que nas sombras é que existe.

É madrugada, apago a luz e percebo que as cores que me restam são um poema e uma canção. Acabei de plantar um germe no vaso de terreno frio; no vaso solo fértil ilimitado da fantasia.

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