Cheirando Café


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sobre (a) Inspiração

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Agora tenho tempo pra ti. Cadê você, Inspiração?
Desculpe se eu estava ocupado. Algum ressentimento?
Sei que a deixo esperando. Mas, não é em vão.
Afinal, você também é livre, não posso te prender.
Só quero que entenda um poeta. Você bem sabe,
cada qual com seu tempo. O duro é não escrever.

Preciso dizer sobre as flores, sobre os amantes,
sobre o vazio, sobre os desamores, sobre agora,
e igualmente, sobretudo,  sobre amanhã,
sobre depois. Quero falar neuroticamente
sobre tudo e se não sobra nada
eu falo outra vez sobre antes.

E se não sobra, que sobre nada,
que sobre o que sobrou,
que sobre um sobejo,
que sobre e assombre,
que sobre perto,
que sobre sem sombra de dúvida,
que sobre vergonha,
que sobre um passo,
que sobre longe,
que sobre a serra pro gavião carcará,
que sobre paisagem,
que sobre chuva,
que sobre mangue pro mar,
que sobre um bocado,
que sobre amores,
que sobre embaraço,
que sobre um sobrado,
que sobre uma janela,
que sobre flores,
que sobre pedras,
que sobre sobras,
que sobre restos,
que sobre água pro rio
que sobre alguns versos ensaboados
nas mãos das sábias lavadeiras do Rio Acaraú,
que lavam ainda sóbrias
sob incansável calor na cabeça
e ainda contam histórias sobre uma ponte velha de Sobral.

Preciso narrar o ballet da centopéia no último degrau da escada do bosque do parque perto do lago às cinco da tarde depois de comer um inseto sem saber se é doce ou é salgado;
o raio de sol da manhã do lado esquerdo do peito da menina de olho verde apaixonada com cinqüenta centavos na fila de pão;
o mistério da sombra do ser verde parecido com alienígena da ficção científica, mas que na verdade no dito popular é um bicho papão que ataca de madrugada;
a amplificação da cultura globalizada e a experiência de vida  sob a narrativa das juventudes miscigenadas por uma cultura regional. E o ataque do capitalismo selvagem? Estamos no fim dos tempos? Já falei de inteligência artificial?
E já que falo de tempo, tenho vontade de contar aquela história do doce da alegria, da temporada que fiquei fora de casa, das marchinhas de carnaval, aquilo transformou todas as pessoas que estavam lá em fantasia.

Vamos fazer as pazes pra todo mundo ver?
Enlaçamos o tempo, você aparece
e eu espalho uma poesia dedicada a ti.

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